sábado, 22 de janeiro de 2011

Vinte e dois de janeiro

Dezessete e vinte e três. Fazia exatamente três minutos que eu havia acabado o meu expediente, e nesses belos minutos de liberdade, eu arrumei a minha bolsa que, aliás, havia me custado uns quarenta por cento do meu salário do mês passado; peguei as chaves da porta de casa, sai do escritório, apertei o térreo no elevador e vi a rua.
A primeira coisa que eu fazia ao descer do prédio era parar na padaria que ficava em frente, pedia dois pães doces e uma Coca-Cola gelada, e vinha pelo caminho andando e comendo, e tropeçando por desatenção.
Como de costume eu passava na loja dos CDs. Vivia vazia. As pessoas não recorriam mais a essas lojas, já que no computador elas poderiam montar qualquer acervo riquíssimo. Sempre gostei dos CDs pela forma, o formato em si. Eu gostava de virá-los e ver aquela parte meio espelhada-brilhante-furtacor, sabe? Então, eu adoro aquilo. Às vezes me sinto como um CD daqueles, de jazz, claro. Meio espelhada-brilhante-furtacor, meio esquecida nos dias de hoje, rotineira, que vive rodando e rodando e sempre entoando as mesmas canções, transmitindo as mesmas melodias.
Saia sempre com um ar mais leve daquela loja, e tomava a rua que me levava até a esquina de minha casa. Eu ia em silêncio até dobrar a esquina, até todos reconhecerem instantaneamente aquela menina que havia crescido no mesmo endereço e que, de fato, não havia crescido tanto assim.
“Boa tarde, Luiza, tudo bom?!” – Eu podia ouvir até os postes me perguntarem. A resposta era sempre a mesma, saia por dentre os dentes:
“Está tudo bem sim, e você?“
Nesse momento em que a resposta era concebida eu ficava me perguntando, porque diabos as pessoas na rua perguntavam-me se eu estava bem, como se alguém, de fato, se importasse muito mais com eu estar bem do que com a educação em si. E eu, também preocupada com a educação em si, devolvia a pergunta, mesmo sem o menor intuito de saber se a pessoa está bem. Não me entenda mal, não é frieza ou amargura, mas eu tinha tanta pressa de chegar em casa e tirar esses sapatos apertados que eu jamais diria que eu não estou bem e contaria tudo aquilo que está me intrigando. Já pensou no tempo que eu iria demorar até explicar que eu não gosto do meu emprego e que eu ando mais sozinha ultimamente que o cachorro doente da vizinha?
Faltavam uns cinco minutos para chegar perto do portão de minha casa, quando eu ouvi a seguinte frase:
“ Moça, a senhora deixou cair.”
Antes de olhar para trás eu deixei aquela voz, tão doce, encostar-se às paredes da minha orelha, quase a acariciando. Era algo tão surreal para uma frase tão insignificante.
Então eu olhei, e era lindo. Um homem que aparentava ser uns vinte anos mais velho que eu, com os olhos mais azuis que o céu da manhã na hora em que eu acordei.
“Moça, essa chave caiu da sua bolsa, está ouvindo?” Então eu acordei da viagem mais longa que eu havia feito em tão poucos segundos, olhei vergonhosamente praquele homem e disse:
“ Ah, sim, é minha. Obrigada por me devolv..”
“De nada.” Disse ele, apressadamente, tomando um ônibus verde bem a minha frente.
O ônibus verde ia levando a maior emoção daquele meu dia.
Cheguei em casa, tirei os sapatos, abri os botões da calça, soltei meus cabelos, me sentei no sofá de frente à TV e assisti ao telejornal.
Na verdade mesmo eu estava repassando aqueles breves segundos na memória e achando-me tão patética a ponto de abrir uma garrafa de vodka e terminar no sofá mesmo o meu dia.
Então o telefone tocou e, como de costume, era engano.
Tranquei a porta e fui me deitar.
E sete dias se passaram, e era segunda-feira novamente. Dezessete e vinte e três e eu estava saindo do trabalho, indo comer pão doce e ver CDs.
Chegando à loja, fui direto à prateleira de rock ver as pessoas que gostavam de rock, sempre achei curioso todos aqueles que eram diferentes de mim.
E, pra minha surpresa, havia dois olhos azuis turquesa olhando um CD dos Stones com um sorriso de canto de boca. Era ele, eu sabia que iria encontrá-lo em algum lugar.
“ Moço, isso é seu?” Não havia nada nas minhas mãos, nem no chão.
Então ele me olhou sem entender e perguntou: “ O que é meu?”
“Você não vê?” – Perguntei sorrindo.
“ Não, não vejo. Vejo apenas a moça na minha frente.”
“E isso não pode ser seu?” – perguntei.
“Você? Eu não estou entendendo.”
“Faz uma semana que você me perdeu na rua ao encontrar minhas chaves, eu só quero me devolver, porque faz uma semana que eu olho para os lugares tentando me achar e te achar e encontrar uma maneira da gente se encontrar, e eu te encontrei.”
Ele parou na minha frente e sorriu com o canto da boca, dizendo:
“Eu nem sei o que te dizer, eu só estava aqui vendo CDs e você entã..”
“E eu então estou devolvendo o que você perdeu, não vai me agradecer?”
E ele continuava rindo com o canto da boca. Então ele ficou sério e me abraçou fortemente.
Saímos da loja de CDs com um álbum dos Stones e um de Amy. Ele tinha o cabelo meio grisalho e cheiro de perfume francês. Eu tinha o cabelo tingido de ruivo e cheiro de naftalina. E ele era tudo que eu sempre quis.
Viramos a alameda, conversamos até o portão de minha casa, quando o convidei pra entrar.
“Hoje eu não posso, mas preciso te ver mais vezes.”
O ônibus verde vinha se aproximando, e eu não questionei a sua decisão, até porque tudo que eu mais ouvia dentro de mim era: “Ainda é cedo pra amar.”
Então ele subiu no ônibus verde, tomou seu rumo, e eu entrei em casa.
Troquei o telejornal pelo CD da Amy.
“Will you still love me tomorroooooow?”
Peguei um CD antigo e fiquei por vários minutos olhando aquele lado espelhado-brilhante-furtacor. E era exatamente como eu.
Mas eu havia descoberto que o que eu refletia era algo mais que a luz das coisas, mas sim todos aqueles acordes. E tudo rodava e rodava, e dessa forma eu vivia.
E as semanas iriam passar e eu já não achava mais tão estranho as pessoas que gostavam de rock. E os anos iriam passar e eu nem achava mais estranho ser tão jovem.
E a vida iria passar e eu estaria condenada ao setor de achados e perdidos. Porque tudo na vida é perda, tudo está propício a sumir. Mas sei que hoje tenho uma certeza, de que há achados para tudo aquilo que, cuidadosamente, se sente perdido no tempo, como eu estive um dia. Como todos nós estivemos e estaremos até o fim, até encontrarmos o fim mais próximo para acharmos um novo começo.
“Will you still love me tomorroooooow?”
Quem sabe?


Um comentário:

Débora Fonseca disse...

Mari,
dói os olhos ler letras brancas em tela preta. Saí do texto com os olhos cansados...
eu gosto de ler seus textos, mas esse como era grande, acabou acontecendo isso.
Só sugestão.